19/03/2006


Santana: Música para os quadris

Com licença Pearl Jam, Stones, U2, tudo beleza, tem espaço pra todo mundo, gosto não se discute e tal e coisa, mas guitarra com molho é oooooutra coisa, outro prato, outro sabor... Show do Santana na Apoteose!!

Não entendo nada de técnica, mas não sou surda e a banda foi o que deveria ser, com louvor: metais em brasa, percussão irresistível. Dancei muito, cantei outro tanto, não me arrependo dos (caríssimos) R$ 120. Minha irmã, que entende muito do riscado, diz ser fã incondicional do Raul Rekow, cujo biotipo inspirou o seguinte comentário do impagável LSDias: "traficante peruano recuperado..." .

Foi um show ótimo e talvez um dos melhores deste ano cheio de atrações internacionais (semana que vem tem outro - Jamiroquai no Claro Hall - vejo vocês lá!) , mas ainda assim não foi o show que eu encomendei aos céus não! Terminou meio bobo, quem estava à minha volta ficou sem saber se tinha acabado mesmo, se devia pedir bis ou ir embora. Faltaram, do "Shaman", "Nothing At All", "The Game Of Love" e "You Are My Kind", e do "All That I Am", "Just Feel Better", "I Don't Wanna Lose Your Love", "My Man" e "Cry Baby Cry". Passei a semana sonhando ouvir/cantar/dançar estas duas últimas ao vivo, e fui pra casa frustrada. Custava trazer uma vocalista bacana, para fazer as músicas que na gravação original tiveram como convidadas Michelle Branch, Mary J. Blige e Joss Stone? Foi economia nos custos da turnê????

Experiência inédita e divertida: puxei a multidão nas palmas que acompanharam o baterista, naquela exibição inacreditável de cerca de 15 minutos. Claro, as palmas teriam vindo de qualquer forma, as batidas de Dennis Chambers ganhando velocidade pediam mesmo interatividade, mas foi muito engraçado fazer o primeiro "clap" e sentir as pessoas aderindo.

Vocês não ficaram com medo daquela pomba da paz no telão, não? Gigante, voando, voando, voando, em câmera lenta e sem chegar a lugar nenhum... Parecia uma assombração, sei lá... Para compensar, do telão também veio um momento bem bonito do show: as imagens da carreira, dos álbuns, dos shows de décadas.

O Bono deve ter dito pra ele "fala de paz e de Deus que o povo de lá gosta", e ele lascou umas frases quase samba do crioulo doido, juntando Buda e Xangô. Dispensável, dispensável: a Fundação Milagro não precisa disso... Outras pequenas apelações, que não comprometeram o andamento do espetáculo, foram a citação de ''Aquarela do Brasil'' e a saudação aos "nossos irmãos da favela". Também foi uma apelaçãozinha, mas teve o mérito da originalidade a "Romaria" no baixo de Benny Rietveld. A platéia fez coro bonito no refrão.

A camisa que Carlito usou durante todo o show (nada daquelas presepadas de ficar trocando de figurino) ele comprou em algum camelô na calçadão, aposto. Outra do LSDias: "Figurino discreto, o do Santana, todo em tons de cinza. Desde o cinza amarelo-gema até o cinza verde-bandeira...". Aliás, registro que daqui pra frente só quero ir aos shows com o Lu Dias: apoiada por ele fui me esgueirando pela multidão, e vi quase toda a apresentação na cara do palco, de frente pro gol.

Para ler comentários quase científicos sobre o show, música & músicos, clique aqui e aqui também (Obrigada, mestre!).

P.S. : E eu estava liiiiiiinda de cabelo novo e blusinha esvoaçante!! :))

14/03/2006

Tenho dois comentadores anônimos!!! Um amigo gaiato ("gaiato" é uma palavra antiga, bem ao gosto do freguês) disse que acabo de criar outra instituição: no lugar dos AA, bebuns com crise de identidade, criei o AAA ("adooooro amigos anônimos!", que foi o que exclamei, entusiasmada, ao ler os comments).
Mas acho que peguei o segundo comentante em uma mentirinha. Ele afirma que "do orkut fui prum blog fui pra outro, e cá estou no teu"... mas eu não estou lincada em lugar nenhum!! Este blog é mais isolado que a ilha do Lost!!! Se ele veio, veio do Orkut direto, ou seja, é amigo velho, querendo me pegar de surpresa. Vou investigar...
E quanto às fotos, tenho outras tantas, com mais joelhos, cotovelos, tornozelos e mãos. Interessa? :))

12/03/2006


Boom Boom Boom
Santana's in the room !!!

A base do show é o CD novo, mas os clássicos certamente estarão lá!!
Terminei de ler "O que as mulheres procuram na bolsa", do Joaquim Ferreira dos Santos, delícia com as palavras-elo unidas em perfeita corrente: nenhuma sobrando, nenhuma faltando, todas de mãozinhas dadas, cercando idéias divertidas, sacações espertas, nostalgias várias, irreverências e maldadezinhas de calibre leve.
Presente inesperado, o volume é a mais concreta doçura da já longa lista de afagos que venho recebendo de um amigo, desde que, numa internauta madrugada, revelei-me seqüelada e recebi no ato a promessa de vingança. (Huum, vai ter neguinho interpretando isso da pior maneira possível... Ah, quer saber? Azar o dos que não lidam bem com seus afetos...).
@mizade só possível nestes tempos virtuais, olho no olho só estivemos uma vez, mas que diferença faz? Ele nem sabe, mas, em duas ou três oportunidades, a minha auto-estima rolava na calçada e ele foi lá, recolheu a coitada, lavou, passou, engomou e mandou entregar, embrulhada em celofane.
Hoje as Pajeros desgovernadas não precisam mais atropelar ninguém (bom, um esbarrão e uns arranhões ainda fariam bem), e a vida segue, agora com mais colorido.
(Para quem quiser ler, a crônica "A mulher seqüelada" está aqui)

27/02/2006

Uma coisinha legal sobre o show...
Desde então, a progressista cidade mineira de Varginha passou a ser uma verdadeira locomotiva do país.
Rock'n'roll and rabugice
Já viram que eu não escrevi foi nada sobre os Rolling Stones. Pois é. Passaram-se os dias e eu perdi o gosto. Com o correr dos dias também veio o show do U2, e eu encontrei quem escrevesse, com mais estilo e (falta de) humor exatamente aquilo que eu gostaria de dizer. Com a palavra, Roberto Pompeu de Toledo (Histeria, patetice e rock'n'roll)

A infausta passagem pelo Brasil de dois famosos conjuntos de rock deu ensejo a que os meios de comunicação em geral, a televisão em particular, se dessem com gosto e empenho a uma de suas práticas prediletas – a de incitar a histeria e/ou idiotia da população. "O que você vai sentir quando eles entrarem no palco?", perguntava a repórter, esticando o microfone para um grupo de mocinhas, instantes antes do show do grupo U2. "Vou morrer", disse uma. "Vou surtar", disse outra, tudo entre gritinhos e pulinhos. Era o que a repórter queria ouvir. Morrer, surtar – que delícia! Volta para o estúdio, e os apresentadores do telejornal sorriem, satisfeitos como um político do PSDB depois de esvaziar uma garrafa de Amarone della Valpolicella, corte Sant'Alda, safra 1995, no restaurante Massimo.
Dias antes dos shows, como é de rigor, já havia pessoas acampadas nos locais onde aconteceriam. Imagina-se o desconforto desse novo povo das ruas, a dormir mal, comer pior e sofrer os efeitos dramáticos da falta de um banheiro. Alguém dotado de um mínimo de espírito humanitário procuraria encaminhar essas pessoas a um tratamento psicológico. Não os meios de comunicação. Estes se deleitam diante de tais faquires do universo pop. "Há quanto tempo vocês estão aqui?", pergunta-lhes o repórter. "Dois dias? E o outro lá – três? E o outro – cinco?" E é um maravilhamento só. "Vale a pena?" "Vale, qualquer sacrifício vale." E a televisão exalta o exemplo desses jovens que deixam tudo, conforto, estudo, trabalho, em honra dos ídolos. São os nossos muçulmanos, em tempo de hajj, quando vale qualquer sacrifício, inclusive morrer pisoteado, para visitar os lugares do profeta.
O líder dos Rolling Stones marcha com passos enérgicos de um lado para outro do palco, move os braços de modo decidido, nunca sorri. Abstraia-se o som infernal e, se aquilo fosse cinema mudo, teríamos a cena de um recruta que se perdeu do regimento e procura desesperadamente o rumo, no meio do campo de batalha. Ou, então, a ação de uma dona-de-casa enraivecida, andando de um lado para outro da casa, a mostrar à faxineira como ela fez tudo errado. Não, ninguém está lá para tapar os ouvidos e brincar de cinema mudo. Na verdade essas pessoas estão lá para algo que vai além de ver ou escutar – adorar. "Agora ele se aproxima do público", conta o repórter. "Vai ser o delírio." É o delírio. Se não fosse a presença das câmeras de TV, talvez não se configurasse delírio tão delirante. A TV e o delírio têm tudo a ver.
O líder dos Rolling Stones, na boa tradição do rock, é um nulo em matéria de política. Um "alienado", como se dizia, numa ofensa pior do que xingar a mãe, na época em que ele era jovem. Já Bono, do U2, se entrega à militância em favor de todas as boas causas, tantas que alguém lhe precisaria dizer: "Calma, rapaz! Assim nem Madre Teresa de Calcutá..." Ele considera que o presidente Lula está fazendo muito para diminuir a fome e a pobreza no mundo. Com isso, aumentou em 100% a quantidade de pessoas que partilham desse pensamento – agora ele se soma ao próprio Lula. Ao ir ao encontro do presidente brasileiro, Bono disse que visitar Brasília sempre fora seu sonho. Como? Alguém pode ter o sonho de visitar Brasília? Ou o rapaz está mal, muito mal de sonhos, ou foi insincero. E, se foi insincero nesse ponto, será que também nas causas que defende...
Não. Afastemos as suspeitas descabidas. Importante é que ele chamou uma mocinha de Volta Redonda para dançar no palco. "Que sortuda", exclamou a apresentadora do telejornal. A apresentadora aparentemente gostaria de estar no lugar da mocinha. Ou talvez não. Talvez o que ela quisesse era mostrar que também estava no clima. Não cabiam dissensões. A TV empenhava-se em fazer crer que era saudável, bonito e razoável que todos os brasileiros reagissem com efusões desmesuradas, quanto mais desmesuradas melhor, à presença dos ídolos do rock. O marido da mocinha de Volta Redonda disse que não teve ciúme, nem quando ela afagou o queixo do cantor, bem apertadinha, nem quando lhe sapecou um beijinho na boca. "Fã é assim mesmo", disse. A mocinha, naquele momento, era o retrato do ser humano subjugado. Desceria aos infernos com seu ídolo, o seguiria nas batalhas mais espinhosas pela justiça no mundo, juntaria à dele a voz pelo hexa do Brasil e pela glória da irredenta Irlanda. Fã é assim mesmo.
Bono, portento de tolerância que é, uniu os símbolos do cristianismo, do judaísmo e do Islã na mesma faixa enrolada à testa. Em outro momento, recitou os nomes dos países da América Latina e, quando falou "Argentina", o público vaiou. A platéia provou que, em matéria de tolerância, não é digna de Bono. Em compensação, os coleguinhas de escola do filho brasileiro de Mick Jagger, o homem dos Rolling Stones, mostraram que estão no clima. Quando Jagger apareceu por lá, causou tumulto. Provou-se que as lições da TV estão sendo bem aproveitadas. A histeria e a parvoíce já se implantaram entre as novas gerações. Com isso está garantida sua continuidade.

20/02/2006

Rolling...
Estou criando coragem para escrever, hoje, segunda-feira, sobre o show de sábado (ontem fiquei de moleza o dia todo, nem liguei o computador). Desde já, uma constatação: eu acho que vi outro espetáculo, diferente do que está nos jornais...
Em uma das primeiras sessões, minha analista disse que eu "tinha uns insights ótimos, percebia tudo muito depressa". Depois disse que eu era "inteligente demais, entendia tudo demais". No último sábado, afirmou que eu "tinha muita noção das minhas coisas"... Boa ela, hein? Muito boa... :))

06/02/2006

A coluna de hoje do Joaquim Ferreira dos Santos, de quem ganhei um doce afago e a promessa da cumplicidade na vingança...

A mulher seqüelada
Seqüelada. Haverá prazer maior do que uma palavra nova numa mulher das antigas? As letrinhas morrem de rir, a moça infelizmente não pára de chorar e de perguntar. O que aconteceu? Seqüelas doem. Por muito. Ligue seu aparelho estereofônico e escute as duas. Já teve a mulata que não está no mapa, o remédio que o doutor me receitou e tantas outras. Todas lindas. As certinhas do Lalau, as garotas do Alceu, as dez mais, as chacretes, as existencialistas com toda razão, as boazudas, as frenéticas, as sufraguetes, as marias chuteiras, as socialites, os brotos, as gatinhas, as cachorras e as eternas cinéfilas cubistas do Estação. Agora é a vez da mulher seqüelada, a mais triste. O trema é antigo, o sentido novo. O problema, coitadas, o mesmo de sempre. O medo, a quase certeza, de que neste momento existe outra tocando a pele dele e o enleio de ontem, o conluio da véspera, foi o último. O medo, a absoluta certeza de constatar que o amor é feito de mãos e dentes, o resto se desfaz na vaguitude dos espíritos, no desespero das saudades, na obsessão eterna, amém. A seqüelada não está no dicionário. Houaiss. Aurélio. Eles não sabiam ainda. Perderam este bonde semântico. Homens tradicionais, todos bem casados, não sabiam nada do pegapracapá amoroso. Nossos dicionaristas não tiveram o prazer. Pularam o verbete. Maysa era uma seqüelada quando cantava meu mundo caiu e me fez ficar assim. Estropiada. Desparagonada. Anarquizada. De quatro. Ela sofria. Dois imensos olhos não pacíficos chorando abandonos semestrais. Nora Ney, então, nem se fala. Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de bem me quer. Hoje há cantoras ecléticas, seqüelada nenhuma se admite. Seqüelada, ouço-as maldizer, ficava a vovozinha. Não que seja praga-e-budapeste insuperáveis. Não lhes ria. Acontece um dia e a todas em sua hora de desespero o rótulo lhes caberá naquele esgar de sempre. Ali, na esquina do buço dourado com a covinha da bochecha. Todos saberão ou, os mais míopes, ouvirão que você não balbucia outra coisa. Ele. Sumiu. Volta? Há a mulher da vida, a Maria ninguém, a canhão, a hippie, a vai com as outras, a vizinha faladeira. A seqüelada já estava nas cavernas egípcias, nenhuma novidade no seu despudor sofrido. Os gregos, os portugueses, os fenícios, todos os homens em algum momento iam embora e deixavam a pobre coitada a perguntar para os amigos. Por quê? Disse que me queria. Rimou as mais doidas poesias. O amor é sentimento ou matéria? Dar ou receber? Por que o espírito é tão possessivo? Noventa por cento do tempo dela são dedicados a tentar entender o na maioria das vezes verbalmente inexplicável. Ele não ligou. Disse que vinha. A mulher seqüelada é isso que você já percebeu. Aquela que ficou traumatizada pela tristeza que Vinicius anunciava na canção. Se a vida é a arte do encontro por que tanto desencontro nessa vida. Eu encontrei uma seqüelada dias atrás e ela me foi sincera no pedido. Que eu a ajudasse a colocá-la no sono daquele certo homem e ele nunca mais dormisse em paz. Nunca mais acertasse o tom de uma música, nunca mais concordasse o verbo com o sujeito, nunca mais acertasse o foco e a luz de uma maldita foto. Que a seqüela atravessasse a rua, sem sinalizar seu novo rumo, e de surpresa, como o carcamano tinha feito com ela, como uma Pajero desgovernada, agora o atingisse — e eu amanhã publicasse no jornal a mais linda das notícias. Que os sinais vitais do indigitado, o seu orgulho de macho, a soberba dos que abandonam, já não estavam mais preservados. Havia se ido desta para uma pior e que a assombração de seu grito de orgasmo pairasse toda noite sobre aquela última a quem ele havia tocado a pele. Só assim ela, a seqüelada que me pede ajuda, se libertaria de reinventar todos os dias os olhos de desejos que ele, ainda anteontem pela manhã, debruçava sobre seu corpo. Só assim ela se livraria do gosto da hóstia consagrada que em seguida ele colocou, recitando o mantra lírico-safado dos amantes, em sua boca arfante. Ela queria mais, mais, mais, e agora sabia tudo em vão. A seqüelada é aquela que se espanta com a voz do corvo na orelha. Nunca mais. Nunca mais. Certas noites ela pede para que a igreja evangélica logo ao lado amplifique dez vezes os gritos de aleluia e lhe apague o corvo das orelhas. Mas o corvo também tem seu sistema de som e TV. Nunca mais é nunca mais. Fala mais alto. Maria Adelaide do Amaral, da minissérie “JK” me perguntou outro dia. Como se dizia lésbica nos anos 50, já que lésbica propriamente não se dizia nos anos dourados da repressão sexual. Cassandra Rios parece que carregava o estigma, nenhuma mais. Sexo não era essa alaúza de agora. Eu arrisquei paraíba e parece que alguém vai ser chamada assim na TV. Não vem ao caso. Seqüelada não tem nada a ver com isso. Pelo contrário. Ela gosta é dos homens, mas geralmente dos homens errados. Tem a ver com a paraíba, mulher macho, sim senhor, apenas porque os rótulos são cruéis e ajudam a entender em quatro sílabas as 500 páginas da odisséia de Ulisses. Entre os adolescentes, por exemplo, há uma seqüelada diferente. Para eles a seqüelada é apenas a mulher lerda, meio viajandona , que não entende bem as coisas. Sofre das idéias, os buracos da maconha já apagando uns arquivos da memória. Na faixa acima dos 30 anos as seqüelas são outras. Atacam o coração. A seqüela identifica a vítima de um cretino qualquer que prometeu mundos, fundos e uma viagem para os cafundós mais profundos onde ninguém interromperia a pressa de suas mãos e dentes. Foi o que ela entendeu e agora ei-la aqui. De quatro, feito a outra. Na véspera do Natal, na noite de aniversário, minutos depois de ter sido presenteado com uma caixa de DVDs dos Beatles, o cara não explicou muito bem o que estava acontecendo para aquele súbito tremor nos artelhos. Arriscou umas palavras vagas sobre a complexidade de se estabelecer um tempo comum entre eles. Parou no meio de uma frase sobre a falta de sintonia entre a ambição física e a correspondência dos sentidos. Olhou turvo para a mosca varejeira que passeava sobre a pia. Bateu a porta como se fosse ali no quiosque comprar flores. E foi. Para sempre. Nem se dignou ao aviso. Era a extrema-unção dos católicos, a saideira do Braca, o baile da cremação das tristezas dos carnavalescos, o último acorde para os melômanos, o trilar do apito para os boleiros. Bateu a porta e inaugurou no peito de mais uma muher a seqüela terçã que a tudo embaça e não deixa crer que amanhã, e nem mesmo depois do carnaval de satisfaction dos Rolling Stones, nunca mais será outro dia. Maldito o amor lhe seja.

23/01/2006

Uma metáfora para a minha vida
Quem me conhece sabe que eu tenho duas casas, o que significa que eu fico carregando malas para lá e para cá. Pois bem: uma dessas malas estava estacionada na minha cozinha desde sexta, e também desde sexta eu vinha evitando abri-la. Eu não lembrava bem o que havia guardado nela, mas estava certa de que ela estava cheia daquilo que chamo genericamente de pendências - tarefas dos dois empregos, da aula de inglês, das promessas feitas aos amigos e a mim mesma e nunca cumpridas, roupa por lavar, livros por ler, e não sei mais o que.
Passei todo o dia de hoje adiando, temendo, contornando e fingindo não ver a dita mala. Como estratégia para evitar encarar esta que eu julgava ser a mais penosa tarefa do fim de semana, arrumei todos os armários e estantes que pude - e não posso negar que isso foi bem divertido e lucrativo, mas definitivamente não era uma prioridade, era só uma rota de fuga.
Quando acabei de arrumar a última prateleira e não havia mais como escapar, fui lá, com o coração apertado , encarar a mala, já pronta para dizer "Ai, meu Deus , eu devia ter feito isso primeiro...".
Adivinhem? A mala estava VAZIA... em algum momento eu tirei tudo o que estava dentro dela e não lembrava, não percebi, sei lá. Atormentei-me três dias seguidos à toa.
Moral da história: acho que estou carregando, sem saber , muitas outras malas vazias na vida. Preciso olhar dentro delas, para finalmente descansar.

08/01/2006

Tenho dois leitores, vejam só!
Ambos bem exigentes. A minha amiga do mundo dos contos de fadas manda e-mail dizendo "queremos atualizações" e o meu amigo Malvadão liga fazendo ameaças e avisando sobre os riscos que eu correria se fizesse citações sobre ele aqui. Vou ter que contratar um segurança, então, pq como deixar de falar sobre uma das pessoas mais importantes da minha vida?
Meu staff cresce assustadoramente. Agora tenho:

1 analista
1 acupunturista
1 astróloga
1 massagista
2 médicos ortomoleculares
1 cirurgião plástico
2 personal-trainners
'Eu' Noites Cariocas
  • Comentário ao fim do abre da Preta Gil para o show de Gilberto, neste sábado, no Morro da Urca:

- O músico tá lá nos bastidores tranqüilo, o ministro está puto e o pai constrangidíssimo!!...

  • Preta Gil poderia facilmente fazer grande sucesso popular, se não fizesse tanta força para ser sucesso e popular. Canta bem, dança com vontade e é simpática no palco, não precisava mesmo adotar o estilo "eu sou o escândalo da vez". Também ajudaria se resolvesse se quer cantar funk, pop, axé, samba... Ecletismo tem limite. E aquele vestido dourado ela deve ter comprado na Loja Marisa de Madureira!
  • A platéia estava tão classe média que eu nem me senti inadequada.
  • Todo mundo foi lá para gostar, não tinha mesmo chance de não dar certo, mas o espetáculo superou a minha mal-humorada expectativa (aquele papo de alma velha, vocês sabem). Gil parecia grato e comovido por ser recebido simplesmente como o artista estupendo que é, agradeceu várias vezes, e se divertiu tanto quanto a platéia. O ministro tava feliz. Bonitos (ia dizer emocionante, mas ia ser demais) a voz de sempre, o acento baiano no tango irado e nas letras em inglês, os gestos altivos de saudação à platéia, braços para o alto, na beira do palco. O ministro tava feliz... Vieram os clássicos previsíveis, seus e de outros, e o pai da Preta tirou graça e beleza até mesmo da surradíssima Imagine. Só faltou "Esperando na janela". Eu cantei bastante, aproveitando para expandir o chacra laríngeo, como mandou a minha astróloga. O aplaudômetro marcou 10 em "Palco", "Vamos fugir", "No woman, no cry" e quase explodiu em "Aquele abraço". O bloco vou pra Jamaica foi longo demais , na vedade quase todo o show ("...maconheiro conhece todas as músicas de Bob Marley, é só começar que todo mundo canta..."), mas tudo bem, as good vibes estavam todas lá e o ministro tava feliz.
  • Alguém gritou "Gil, corta o cabelo!!". Apoioado...
  • Fui com irmão e cunhada. Oportunidade para conversas reveladoras e para vê-lo, elegante, swing&simpatia, em um sambinha malandro.
  • Os trejeitos de roqueiro-regueiro-macumbeiro do ministro no palco não deixaram dúvida de que Preta tem a quem puxar.
Wave

Entre os meus amigos mais próximos, nos últimos dois meses, cinco separações...

27/12/2005

Quase dois anos sem escrever nada aqui!
Este é o meu terceiro blog. O primeiro, "Provisório", era bem bonitinho, tinha uns textos muito bons, mas acabou virando depósito de tanta mágoa que um dia pedi ao meu "gerente" que tirasse tudo do ar e deletasse. Hoje me arrependo um pouco, gostaria de recuparar algumas coisas, mas talvez esta arqueologia doesse tanto, tanto... Afinal, o nome era "Provisório", não era? Então... passou!
Até aqui este blog era só um rascunho, ninguém tinha o endereço. Hoje vou colocar no Orkut, e seja o que Deus quiser.

21/03/2004

Os dias têm tido cores, aromas e silêncios muito estranhos nas últimas semanas... Antigos... Acho que não gosto. Ora me trazem um tempo em que fui feliz, e que perdi, ora recupera outros tempos, de infelicidades, dos quais não consigo me livrar. Quão perturbadora é a memória...
Há tempos não nascia uma criança na família. E aí nasceu Leonardo. Um acidente, uma irresponsabilidade. Uma dádiva.
Primeiro neto, primeiro bisneto, filho varão do filho favorito, nasceu catalisando atenções. Bonito, lindo - não podendo mesmo ser diferente, posto que os pais têm belos traços. Puxou à mãe, primeira geração da família a driblar os genes poderosos de seu Sílvio e dona Olívia.
Inteligente, sem ser prodígio - existe coisa mais chata que criança prodígio, persona extemporânea dos anos 60? - conversa como adulto e tem desempenho escolar previsivelmente acima da média, motivo de piada porque radicalmente oposto aos do pai e da mãe. Cabe aqui a licença poético-genética de dizer-se que puxou aos tios.
Sensível, intui sentimentos e situações, com sofrimentos de gente grande. Logo, logo vai ser mais maduro que a mãe, que tem por ele um carinho superior a todos os outros, mas que não arrisco chamar de maternal. Mãe, neste caso, é a avó, que roda pião, recorta papel, ensina palavras, escova os dentes e até bate uma bola.
Os mais céticos e racionais podem dizer que ele é o que é porque convive com adultos, foi para a escola cedo, e tal e coisa. Pode ser também. Eu, que não sou propriamente crédula mas sei que bruxas existem, penso tratar-se de uma alma velha e sábia, que já viu bastante, que já conhece a todos nós. Uma alma velha, encarnada num garotinho, causando surpresas, dando lições.

16/01/2004

Vai atrasado por motivos técnicos, mas a intenção é o que vale:

"Eu sei, eu sei... Estive meio ausente no Natal, não cumprimentei ninguém, não fiz festa e o Papai Noel limitou-se à lista regulamentar de parentes mais chegados. Desculpas a todos pela falta de clima, tá?
Mas o Ano Novo está aí e, embora todo mundo saiba que é só um dia depois do outro e que a vida não muda da água para o vinho só porque o calendário velho foi jogado fora, nem mesmo eu consigo ser tão desagradável a ponto de virar as costas para a festa e seu simbolismo.

O ano recomeçando, zeradinho, com todas as suas possibilidades renovadas!! Empregos, provas, concursos, Páscoa, Carnaval, festa junina, dia do pai, da mãe e das crianças, aniversários, férias, verão, outono, inverno, primavera, passeios, visitas, 13º, tudo novo, de novo! E mais os filhos, genros, noras, sogras e novos amigos que vão aparecer sem aviso, a tecnologia que vai nos surpreendendo a cada esquina, as bizarrices de que o ser humano é capaz, os gestos comoventes dos anônimos, os transgênicos, os políticos e os amores (muito importantes, os amores!!!).

Alguns anos já nascem meio velhos, com mágoas antigas, peso nos ombros, projetos amarrotados, mas 2004 vai ser, se Deus quiser, novinho mesmo, instituidor, fundador, inaugural, com cheiro de carro zero, ar de festa de formatura, limpinho como apartamento em primeira locação, feliz como namoro no começo...


Tudo bem, lá vem a segunda-feira outra vez, mas - pelo amor de Deus - é Ano Novo! 2003 não foi fácil para mim, como não deve ter sido para ninguém, e como também não o foram 2002, 2001, 2000, 1945, 1918, 1500, 32, 10 aC... Desde que o mundo é mundo todo dia é uma batalha e acordar de manhã com medo não é um privilégio seu ou meu.

Então vamos lá: faça um feng shui aí na sua mesa de trabalho (já fiz aqui na casa toda), jogue fora o máximo de papéis e bagulhos que puder (se não usou nada até agora, é porque não precisa deles), troque os retratos que estão no quadro de cortiça (seus filhos já se tornaram adolescentes, seu corte de cabelo não é mais o mesmo e as próximas férias serão muito mais divertidas que estas que estão registradas aí há meses) e traga uma planta que dê flores (veja se dessa vez você lembra de molhar a coitadinha de vez em quando, tá?).
Faça uma tatuagem, mude o estilo da barba e a dieta, se a anterior não deu certo, ou então deixe isso pra lá e mude de uma vez o número da roupa que você compra e o furo do cinto - vocês são lindos assim mesmo!
Copiando sem constrangimento o que disse um amigo muito querido em sua mensagem de Natal, vamos nos falar mais em 2004! Ligar só para dizer "oi" é uma prática muito saudável: desentope artérias, eleva o batimento cardíaco, elimina os radicais livres, fortalece os músculos do sorriso e pode até ajudar a desentupir os dutos das glândulas lacrimais. Vocês são uma parte muito muito importante e feliz da minha vida, não quero perder ninguém de vista!

Sorte e saúde para todos! Amo vocês."

07/12/2003

Granadas, fã-clube, bons cachês e escolta armada
Indo aonde o povo está

Todo artista tem histórias para contar de shows feitos nas piores condições, nas circunstâncias mais difíceis. As comunidades consideradas perigosas lotam os locais dos shows, esforçam-se para agradar o ídolo presente e emocionam-se sinceramente com um simples aceno ou aperto de mão, mas também são responsáveis por momentos de tensão e medo.
Quem já faz sucesso, ou quem ainda pretende fazer, sabe da importância desse tipo de público, ativo participante de fãs-clubes, mas sabe também que não é fácil cantar descontraidamente em verdadeiros bunkers, diante de uma platéia fortemente armada.



São 22h. Um dos muitos grupos de pagode que animam os fins de semana cariocas se prepara para mais uma apresentação. A esta hora, como de costume, começam a se reunir na casa de um de seus componentes, de onde seguirão, num pequeno comboio, para o local do show.
Hoje farão aquilo que se chama "show de comunidade": espetáculos patrocinados pelos donos das bocas-de-fumo, comemorando o aniversário de alguém importante na hierarquia do "movimento" ou apenas para manter a simpatia e a fidelidade dos moradores do local. A preocupação entre os músicos já é visível. Não é fácil saber que, em algumas horas, estarão no centro de uma das comunidades mais violentas do Rio, cenário do confronto entre as diversas facções do tráfico que dividem a cidade. Mas é trabalho, é preciso ir...
Seguindo a regra de ouro dos morros- o silêncio - o porta voz do grupo evita citar nomes. É um sinal de respeito àqueles que, segundo ele, respeitam quem não os atrapalha.
- E eu não estou aqui para atrapalhar ninguém...
Encarando tudo profissionalmente, analisa os altos e baixos do cotidiano do artista:
- A nossa profissão faz com que a gente vá do caviar até a fome. Num dia estamos numa casa de espetáculos com os maiores requintes, num camarim regado a bebidas variadas e frutas e no dia seguinte estamos num show de comunidade, onde o palco é feito de placas de compensado e estruturas de andaime, o som é uma mesa de no máximo 16 canais e o operador veste uma camiseta e um chinelo de borracha...
O show de hoje, na verdade, seria de um outro grupo, mais famoso e popular, mas nem todo mundo tem coragem de ir. Além disso, um dado estatístico curioso muitas vezes impede a contratação deste ou daquele grupo para este tipo de apresentação. É que, vindos dos níveis sociais mais baixos, os componentes dos grupos de pagode têm origem na mesma camada que alimenta as fileiras do Exército, da Polícia Militar ou das firmas de segurança. Muitos são ex-soldados, paraquedistas, ex-policiais militares, parentes de policiais na ativa ou já trabalharam na noite. Subir ao palco nestas circunstâncias envolve o risco da identificação por algum desafeto presente na platéia, e ninguém quer se arriscar.

00h30min O comboio com os músicos, operadores, roadies e instrumentos começa a subir o morro. É a pior parte, porque é sempre uma surpresa.
"Subir" pode ser só forma de expressão. Cada localidade tem uma formação geográfica diferente e é guardada e fortificada de modo específico. Enquanto, por exemplo, o Morro da Providência tem uma única subida, íngreme e estreita, o Complexo do Alemão possui diversas entradas, o que exige uma logística muito maior.
O caminho da subida é dividido com pessoas que estão indo buscar drogas para consumo e a trilha é pontilhada de "guaritas", de onde os soldados vigiam e fazem revistas e abordagens.
Chegando num ponto de encontro previamente combinado, a van do conjunto pára e se identifica. Um representante da comunidade, então, junta-se ao grupo e serve de guia ou batedor, garantindo que está tudo "limpeza". A presença deste batedor evita outras revistas e interceptações mais truculentas.
- Pô, aí! A gente tava esperando vocês! E aí, shock? Pô, firmeza!? Legal, tá tranqüilo, tá tudo certo! Aqui é limpeza, pode ficar relax que é tranqüilo...
Essa mensagem cifrada quer dizer simplesmente sejam bem vindos...
O líder do grupo tem o incômodo privilégio de ser apresentado diretamente aos chefes, que agradecem, com sinceridade, a "moral" dada à comunidade.
A curiosidade é mútua.
- Eles fazem questão de conversar com a gente. A mesma curiosidade que a gente tem com relação a eles - o tipo de vida, como é, como não é - eles têm com a gente. Perguntam como é fazer shows, ter fãs...

1h . O grupo entra no palco e é recompensado pelo carinho do público. É a hora em que os músicos podem relaxar um pouco. As pessoas cantam o repertório do começo ao fim, inclusive as músicas que não estão na mídia, sinal de que têm o disco em casa.. Gritam, tentam tocar nos cantores e músicos, têm o artista como uma miragem.

- A gente sabe que não pode deixar de fazer show pra eles. Não por estarem fortemente armados, que de maneira nenhuma eles nos obrigam a fazer nada, mas sim porque é um povo que participa, que compra o teu disco, que curte a tua música, que liga para as rádios, que está ali para aproveitar mesmo. Não é aquele cara que vai no teu show e está preocupado em azarar. Eles estão ali para sambar mesmo...

A platéia parece um manual de antropologia urbana. Rapazes e meninos franzinos e mal vestidos, portando escopetas, AR 15, mochilas com granadas, Uzis, pistolas e rádios com a naturalidade de quem carrega um brinquedo ou um livro. Crianças de 1, 2 anos, bebês de colo, mulheres grávidas, perambulando no meio daquele monte de armas e drogas, que são consumidas abertamente. Pessoas que, visivelmente, moram em outros bairros, mas que ficam no morro a noite toda porque sabem que lá têm condições de comprar a droga e consumir sem a menor repressão.
Nada pode dar errado. Um show ruim é uma possibilidade na qual ninguém quer pensar. O operador de som explica com uma metáfora muito curiosa o sentimento de medo presente:

- É como se houvesse um grave ressonando em todo lugar, a noite toda. Um ronco, uma zoeira na cabeça... Mas não é, é a tensão, é o clima que é pesado...

2h15min Acaba o show. Os roadies começam a recolher o material e é a hora de receber o cachê. O pagamento é feito em dinheiro, sem pechinchar e em notas de R$5 e R$10 - o preço dos papelotes e dos cigarros de maconha. Também é a hora das despedidas, em que o anfitrião vem dar um aperto de mão e novamente agradecer a presença. Faz questão de tirar uma foto com os componentes do grupo, juntamente com o seu filho, de apenas um ano e que esteve ali o tempo todo, circulando em meio às armas e drogas com a mesma tranqüilidade com que circularia se fosse uma festa infantil.
O grupo agradou, o show foi um sucesso e isso garante que chefes de outros morros farão contato para agendar novos espetáculos. O circuito das comunidades é amplo, pode ser lucrativo e obedece a uma lógica própria. Só vendo para crer.

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"A gente vive pouco, mas em compensação a gente faz o que quer..."

É meio constrangedor você ver garotos de no máximo 14 anos com uma Uzi pendurada no pescoço, tomando conta como se fosse uma fortaleza. E no entanto você chega e é super bem tratado, tendo o máximo de atenção, o máximo de cuidado para que nada aconteça com você lá em cima.
Isso me deixa um pouco magoado, um pouco preocupado, porque a gente não sabe o que será daquelas crianças, que estão ali no meio, vendo aquela arma...Isso aí me assusta, a gente pensa nos nossos filhos, na nossa família, e vê que não tem controle de nada.
Uma coisa me deixa um pouco mais confortável: é o respeito pelas pessoas que não incomodam a eles. Eles têm aquilo ali como um meio de vida!
Um deles, conversando comigo, disse que eles podem viver pouco, mas no pouco que vivem fazem o que querem. Isso pode ser uma maneira de viver. Pode ser que ele esteja certo, pode ser que esteja errado... não sei se a gente deixando de fazer o que quer também está deixando de viver.
É uma experiência que não é agradável, mas que acaba te enriquecendo como pessoa"

(L. líder do grupo)