27/12/2005
21/03/2004
Há tempos não nascia uma criança na família. E aí nasceu Leonardo. Um acidente, uma irresponsabilidade. Uma dádiva.Primeiro neto, primeiro bisneto, filho varão do filho favorito, nasceu catalisando atenções. Bonito, lindo - não podendo mesmo ser diferente, posto que os pais têm belos traços. Puxou à mãe, primeira geração da família a driblar os genes poderosos de seu Sílvio e dona Olívia.
Inteligente, sem ser prodígio - existe coisa mais chata que criança prodígio, persona extemporânea dos anos 60? - conversa como adulto e tem desempenho escolar previsivelmente acima da média, motivo de piada porque radicalmente oposto aos do pai e da mãe. Cabe aqui a licença poético-genética de dizer-se que puxou aos tios.
Sensível, intui sentimentos e situações, com sofrimentos de gente grande. Logo, logo vai ser mais maduro que a mãe, que tem por ele um carinho superior a todos os outros, mas que não arrisco chamar de maternal. Mãe, neste caso, é a avó, que roda pião, recorta papel, ensina palavras, escova os dentes e até bate uma bola.
Os mais céticos e racionais podem dizer que ele é o que é porque convive com adultos, foi para a escola cedo, e tal e coisa. Pode ser também. Eu, que não sou propriamente crédula mas sei que bruxas existem, penso tratar-se de uma alma velha e sábia, que já viu bastante, que já conhece a todos nós. Uma alma velha, encarnada num garotinho, causando surpresas, dando lições.
16/01/2004
"Eu sei, eu sei... Estive meio ausente no Natal, não cumprimentei ninguém, não fiz festa e o Papai Noel limitou-se à lista regulamentar de parentes mais chegados. Desculpas a todos pela falta de clima, tá?
Mas o Ano Novo está aí e, embora todo mundo saiba que é só um dia depois do outro e que a vida não muda da água para o vinho só porque o calendário velho foi jogado fora, nem mesmo eu consigo ser tão desagradável a ponto de virar as costas para a festa e seu simbolismo.
O ano recomeçando, zeradinho, com todas as suas possibilidades renovadas!! Empregos, provas, concursos, Páscoa, Carnaval, festa junina, dia do pai, da mãe e das crianças, aniversários, férias, verão, outono, inverno, primavera, passeios, visitas, 13º, tudo novo, de novo! E mais os filhos, genros, noras, sogras e novos amigos que vão aparecer sem aviso, a tecnologia que vai nos surpreendendo a cada esquina, as bizarrices de que o ser humano é capaz, os gestos comoventes dos anônimos, os transgênicos, os políticos e os amores (muito importantes, os amores!!!).
Alguns anos já nascem meio velhos, com mágoas antigas, peso nos ombros, projetos amarrotados, mas 2004 vai ser, se Deus quiser, novinho mesmo, instituidor, fundador, inaugural, com cheiro de carro zero, ar de festa de formatura, limpinho como apartamento em primeira locação, feliz como namoro no começo...
Tudo bem, lá vem a segunda-feira outra vez, mas - pelo amor de Deus - é Ano Novo! 2003 não foi fácil para mim, como não deve ter sido para ninguém, e como também não o foram 2002, 2001, 2000, 1945, 1918, 1500, 32, 10 aC... Desde que o mundo é mundo todo dia é uma batalha e acordar de manhã com medo não é um privilégio seu ou meu.
Então vamos lá: faça um feng shui aí na sua mesa de trabalho (já fiz aqui na casa toda), jogue fora o máximo de papéis e bagulhos que puder (se não usou nada até agora, é porque não precisa deles), troque os retratos que estão no quadro de cortiça (seus filhos já se tornaram adolescentes, seu corte de cabelo não é mais o mesmo e as próximas férias serão muito mais divertidas que estas que estão registradas aí há meses) e traga uma planta que dê flores (veja se dessa vez você lembra de molhar a coitadinha de vez em quando, tá?).
Faça uma tatuagem, mude o estilo da barba e a dieta, se a anterior não deu certo, ou então deixe isso pra lá e mude de uma vez o número da roupa que você compra e o furo do cinto - vocês são lindos assim mesmo!
Copiando sem constrangimento o que disse um amigo muito querido em sua mensagem de Natal, vamos nos falar mais em 2004! Ligar só para dizer "oi" é uma prática muito saudável: desentope artérias, eleva o batimento cardíaco, elimina os radicais livres, fortalece os músculos do sorriso e pode até ajudar a desentupir os dutos das glândulas lacrimais. Vocês são uma parte muito muito importante e feliz da minha vida, não quero perder ninguém de vista!
Sorte e saúde para todos! Amo vocês."
07/12/2003
Indo aonde o povo está
Todo artista tem histórias para contar de shows feitos nas piores condições, nas circunstâncias mais difíceis. As comunidades consideradas perigosas lotam os locais dos shows, esforçam-se para agradar o ídolo presente e emocionam-se sinceramente com um simples aceno ou aperto de mão, mas também são responsáveis por momentos de tensão e medo.
Quem já faz sucesso, ou quem ainda pretende fazer, sabe da importância desse tipo de público, ativo participante de fãs-clubes, mas sabe também que não é fácil cantar descontraidamente em verdadeiros bunkers, diante de uma platéia fortemente armada.
São 22h. Um dos muitos grupos de pagode que animam os fins de semana cariocas se prepara para mais uma apresentação. A esta hora, como de costume, começam a se reunir na casa de um de seus componentes, de onde seguirão, num pequeno comboio, para o local do show.
Hoje farão aquilo que se chama "show de comunidade": espetáculos patrocinados pelos donos das bocas-de-fumo, comemorando o aniversário de alguém importante na hierarquia do "movimento" ou apenas para manter a simpatia e a fidelidade dos moradores do local. A preocupação entre os músicos já é visível. Não é fácil saber que, em algumas horas, estarão no centro de uma das comunidades mais violentas do Rio, cenário do confronto entre as diversas facções do tráfico que dividem a cidade. Mas é trabalho, é preciso ir...
Seguindo a regra de ouro dos morros- o silêncio - o porta voz do grupo evita citar nomes. É um sinal de respeito àqueles que, segundo ele, respeitam quem não os atrapalha.
- E eu não estou aqui para atrapalhar ninguém...
Encarando tudo profissionalmente, analisa os altos e baixos do cotidiano do artista:
- A nossa profissão faz com que a gente vá do caviar até a fome. Num dia estamos numa casa de espetáculos com os maiores requintes, num camarim regado a bebidas variadas e frutas e no dia seguinte estamos num show de comunidade, onde o palco é feito de placas de compensado e estruturas de andaime, o som é uma mesa de no máximo 16 canais e o operador veste uma camiseta e um chinelo de borracha...
O show de hoje, na verdade, seria de um outro grupo, mais famoso e popular, mas nem todo mundo tem coragem de ir. Além disso, um dado estatístico curioso muitas vezes impede a contratação deste ou daquele grupo para este tipo de apresentação. É que, vindos dos níveis sociais mais baixos, os componentes dos grupos de pagode têm origem na mesma camada que alimenta as fileiras do Exército, da Polícia Militar ou das firmas de segurança. Muitos são ex-soldados, paraquedistas, ex-policiais militares, parentes de policiais na ativa ou já trabalharam na noite. Subir ao palco nestas circunstâncias envolve o risco da identificação por algum desafeto presente na platéia, e ninguém quer se arriscar.
00h30min O comboio com os músicos, operadores, roadies e instrumentos começa a subir o morro. É a pior parte, porque é sempre uma surpresa.
"Subir" pode ser só forma de expressão. Cada localidade tem uma formação geográfica diferente e é guardada e fortificada de modo específico. Enquanto, por exemplo, o Morro da Providência tem uma única subida, íngreme e estreita, o Complexo do Alemão possui diversas entradas, o que exige uma logística muito maior.
O caminho da subida é dividido com pessoas que estão indo buscar drogas para consumo e a trilha é pontilhada de "guaritas", de onde os soldados vigiam e fazem revistas e abordagens.
Chegando num ponto de encontro previamente combinado, a van do conjunto pára e se identifica. Um representante da comunidade, então, junta-se ao grupo e serve de guia ou batedor, garantindo que está tudo "limpeza". A presença deste batedor evita outras revistas e interceptações mais truculentas.
- Pô, aí! A gente tava esperando vocês! E aí, shock? Pô, firmeza!? Legal, tá tranqüilo, tá tudo certo! Aqui é limpeza, pode ficar relax que é tranqüilo...
Essa mensagem cifrada quer dizer simplesmente sejam bem vindos...
O líder do grupo tem o incômodo privilégio de ser apresentado diretamente aos chefes, que agradecem, com sinceridade, a "moral" dada à comunidade.
A curiosidade é mútua.
- Eles fazem questão de conversar com a gente. A mesma curiosidade que a gente tem com relação a eles - o tipo de vida, como é, como não é - eles têm com a gente. Perguntam como é fazer shows, ter fãs...
1h . O grupo entra no palco e é recompensado pelo carinho do público. É a hora em que os músicos podem relaxar um pouco. As pessoas cantam o repertório do começo ao fim, inclusive as músicas que não estão na mídia, sinal de que têm o disco em casa.. Gritam, tentam tocar nos cantores e músicos, têm o artista como uma miragem.
- A gente sabe que não pode deixar de fazer show pra eles. Não por estarem fortemente armados, que de maneira nenhuma eles nos obrigam a fazer nada, mas sim porque é um povo que participa, que compra o teu disco, que curte a tua música, que liga para as rádios, que está ali para aproveitar mesmo. Não é aquele cara que vai no teu show e está preocupado em azarar. Eles estão ali para sambar mesmo...
A platéia parece um manual de antropologia urbana. Rapazes e meninos franzinos e mal vestidos, portando escopetas, AR 15, mochilas com granadas, Uzis, pistolas e rádios com a naturalidade de quem carrega um brinquedo ou um livro. Crianças de 1, 2 anos, bebês de colo, mulheres grávidas, perambulando no meio daquele monte de armas e drogas, que são consumidas abertamente. Pessoas que, visivelmente, moram em outros bairros, mas que ficam no morro a noite toda porque sabem que lá têm condições de comprar a droga e consumir sem a menor repressão.
Nada pode dar errado. Um show ruim é uma possibilidade na qual ninguém quer pensar. O operador de som explica com uma metáfora muito curiosa o sentimento de medo presente:
- É como se houvesse um grave ressonando em todo lugar, a noite toda. Um ronco, uma zoeira na cabeça... Mas não é, é a tensão, é o clima que é pesado...
2h15min Acaba o show. Os roadies começam a recolher o material e é a hora de receber o cachê. O pagamento é feito em dinheiro, sem pechinchar e em notas de R$5 e R$10 - o preço dos papelotes e dos cigarros de maconha. Também é a hora das despedidas, em que o anfitrião vem dar um aperto de mão e novamente agradecer a presença. Faz questão de tirar uma foto com os componentes do grupo, juntamente com o seu filho, de apenas um ano e que esteve ali o tempo todo, circulando em meio às armas e drogas com a mesma tranqüilidade com que circularia se fosse uma festa infantil.
O grupo agradou, o show foi um sucesso e isso garante que chefes de outros morros farão contato para agendar novos espetáculos. O circuito das comunidades é amplo, pode ser lucrativo e obedece a uma lógica própria. Só vendo para crer.
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"A gente vive pouco, mas em compensação a gente faz o que quer..."
É meio constrangedor você ver garotos de no máximo 14 anos com uma Uzi pendurada no pescoço, tomando conta como se fosse uma fortaleza. E no entanto você chega e é super bem tratado, tendo o máximo de atenção, o máximo de cuidado para que nada aconteça com você lá em cima.
Isso me deixa um pouco magoado, um pouco preocupado, porque a gente não sabe o que será daquelas crianças, que estão ali no meio, vendo aquela arma...Isso aí me assusta, a gente pensa nos nossos filhos, na nossa família, e vê que não tem controle de nada.
Uma coisa me deixa um pouco mais confortável: é o respeito pelas pessoas que não incomodam a eles. Eles têm aquilo ali como um meio de vida!
Um deles, conversando comigo, disse que eles podem viver pouco, mas no pouco que vivem fazem o que querem. Isso pode ser uma maneira de viver. Pode ser que ele esteja certo, pode ser que esteja errado... não sei se a gente deixando de fazer o que quer também está deixando de viver.
É uma experiência que não é agradável, mas que acaba te enriquecendo como pessoa"
(L. líder do grupo)
30/11/2003
Gosto disso.É do fim do século passado, quando ainda estava na faculdade e quando a vida ainda era outra...
O dia em que me tornei repórter de polícia
Depois de passar o dia inteiro posando de samambaia de cenário na editoria do Segundo Caderno, ou seja, decorando o ambiente sem fazer parte da trama, eu juntei as minhas coisas e comecei a voltar para casa. Terça-feira, sete de setembro, último dia de um feriadão cheio de sol e que marcou de forma não-oficial do começo do verão: ruas cheias, futebol e briga de galeras em Copacabana.
Na Radial Oeste, o primeiro susto. Parado na pista, um ônibus vindo da praia, um carro da PM e uns 20 moleques encostados na mureta do metrô. Parecia cena de rebelião na Febem.Todos de cara para a parede e mãos na cabeça, levavam a devida dura da autoridade competente.
Se isso acontecesse uma semana antes, a cena não teria merecido mais do que uma olhada pelo retrovisor. Mas agora, não! Agora eu era repórter-auxiliar, nome muito mais bonito que "estagiária" e cujo peso me obrigava a ver notícia em cada pedra do caminho.
Como a função principal do repórter-auxiliar é mostrar serviço, fiz a volta com o carro, mas no que passei outra vez pelo local da ocorrência, a coisa já havia se dispersado. Não era nada, só um rotineiro abuso de poder disfarçado de ação preventiva. Perdi o furo.
Positivo e operante, vamos em frente...
Para quem sai do Centro em direção a Jacarepaguá, a Avenida Menezes Cortes é passagem quase obrigatória. Lugarzinho pitoresco, vez por outra agitado por um animado tiroteio. Subindo a estrada, entrando cerca de um quilômetro naquele território, três carros da polícia, um bolinho de gente e um corpo no chão.
Passei batida, meio em pânico, não deu nem pra saber se estava vivo ou morto.
Volto, não volto... e se sair tiro? E se o cara estiver todo estraçalhado? E se não for nada, só uma bobagem? Vai ver que o cara só caiu da bicicleta...Nisso o retorno foi chegando. Vou, não vou, entrei, voltei. Só que, passando de novo pela cena, não tive coragem de parar!! Mais um quilômetro, dessa vez voltando, em direção ao Grajaú.
Aí o grilo falante disparou no fundo da cabeça. A consciência de que eu havia estudado quatro anos para ter o direito de estar ali, de que eu tinha que ser repórter, de que jornalista não encerra o expediente como funcionário público, de que o registro de um ato de violência tem mais importância do que a egoísta integridade do meu lindo carrinho e a irresistível vaidade de contar primeiro aquilo que ninguém sabia ficaram mais inapeláveis do que o medo de levar um tiro. "Volta lá e apura!", ordenava um editor-fantasma, aqui dentro do meu cérebro.
Sobe morro, desce morro, retorno, pisca-alerta. Começando tudo de novo, dessa vez eu parei. Aí comecei a me sentir importante... Pendurei na cintura aquele crachá que abre todas as portas e me apresentei:
"Boa tarde. Quem me ajuda com a apuração?" Os PM’s se olharam, ME olharam, avaliando, e apontaram para um sargento.
E agora, o que é que eu faço? Tanto estudo, tanta sociologia, e o coração quase saía pela boca na hora de fazer esta apuração corriqueira. (Corriqueira, sim, porque morte de soldado do tráfico já não é mais Notícia, com "n" maiúsculo, há muito tempo...).
Perguntei o básico, para ver se não errava muito. O infeliz do sargento ainda me jogou pra cima do pai do garoto, só para tornar minha vida mais difícil - "Fala com ele, ali, que é o pai do morto. Ele é quem vai saber explicar tudo pra senhora".
O retrato era o óbvio: 20 anos, sem estudo, sem profissão definida, envolvido em guerra de quadrilha, expulso do morro, voltou e se deu mal. A morte aconteceu fora dali, mas o corpo foi desovado naquela vizinhança a título de exemplo.
Uma coisa engraçada, embaraçosa até, é perceber o orgulho que se sente ao usar o jargão do repórter. Ligar para o jornal e perguntar:"um cadáver na Grajaú-Jacarepaguá, vocês já "subiram" isso aí? Não? Então eu vou "apurar" e daqui a pouco eu passo pra vocês..." , é como falar uma língua só para os eleitos, o idioma dos escolhidos.
Sem saber, o maior elogio quem me fez foi o sargento da PM quando perguntou "mas você veio sozinha?". Na verdade o que eu ouvi ele dizer foi "Puxa, mas como você é corajosa, valente, independente e todas essas coisas... ". Porque era assim que eu me sentia! Olha eu lá, no meio do mundo, encarando, fazendo as coisas acontecerem!!
Cadáver devidamente "entrevistado", notinha passada, missão cumprida.
Claro, dei um monte de mancadas. Comecei perguntando "como vai?" e dizendo boa tarde para o pai do morto. A minha tarde talvez fosse boa. A dele, com certeza, não. Também não perguntei onde foi o tiro. Eu nem tive coragem de olhar direito para o cadáver!!! A criatura estava lá, coberta com um jornal. E se eu olhasse e visse o buraco da bala? E se faltasse um olho? E se a cabeça estivesse estourada?
Me lembro da cor amarelada que a sola dos pés começava a ganhar, da pedra sobre o peito, que ajudava a segurar o jornal que o cobria e da expressão do irmão, que ainda segurava a mão do José Ricardo. José Ricardo, sim senhor, porque morto tem nome, seja bandido ou seja mocinho, e em notícia que eu escrever nunca vai ser o "indivíduo" ou o "meliante".
Cheguei em casa correndo e abri a Internet. Estava lá a minha notinha, no Plantão, com horário de entrada e tudo.
O meu diploma de jornalista recebia o seu primeiro carimbo de "OK"...
17/11/2003
Uma:
Deus cuida da minha vida... e você da sua.
Outra:
Deus deu uma vida só pra cada um, pra cada um poder tomar conta DA SUA direitinho.
Uma terceira:
Sugiro que você compre um gato. Assim, além da sua própria vida, você terá as sete do bichano para se ocupar, e deixa a minha em paz.
* O título é um plágio descarado do livro "Mínima Moralia: Reflexões da Vida Danificada", de Theodor Adorno, mas eu não resisti.
16/11/2003
Ontem parte da Família Simpson foi ao show do Marcelo D2. Longo e um tanto desorganizado, o espetáculo nem foi tão bom, mas não importa: é só um motivo para falar aqui de um dos meus irmãos, que estava lá no palco, "vivendo de música", como orgulha-se em dizer.
"Quando nasceu, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai ser gauche na vida"
E assim continua indo, em sua "irresponsabilidade amável" porém precavida, de quem mantém um olho no padre e outro na missa. Exemplar do bom malandro, vai chegar aos 40 sem sair dos 16. Feito pai em um casamento equivocado, tomou para si a tarefa de cuidar do filho - orgulho da raça - e o fez com fúria e competência: com a primeira, brigou pela guarda do menino, conquistada de fato sem passagem pelo Direito. Com a segunda, presença constante, companheiro moleque, atento, disciplinador, vai criando um bom cidadãozinho, com o auxílio luxuoso da avó, dona de uma pedagogia instintiva admirável.
"Divertido, espontâneo, inconseqüente, com uma inocência que não exclui espertezas de Macunaíma", totalmente "lá-vem-o-Brasil-descendo-a-ladeira", incorporou o rigoroso código ético e moral de nosso pai, suingado pela vocação para o marginal de nosso avô. Filho preferido, tem uma aura de líder que nossa irmãzinha (esta já um mulherão de 1,70m) diz irresistível.
- Vai dando um negócio assim por dentro e a gente não consegue dizer não...
E antes que perguntem, amigo meu não tem defeito: não vou dizer aqui que ele é teimoso, que abandonou a escola ou que é abusado. Nada disso. Meu irmão Macunaíma segue, multiplicando com virtude e fortuna o Muiraquitã que Deus lhe deu.
(Em tempo: as citações são todas de Carlos Drummond de Andrade, em "Poema de sete faces" e "Mané e o sonho")
"Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria deste livro, o que será razão suficiente para que não empregues teus lazeres em assunto tão fútil e de tão mínima importância" (Montaigne, Michel - Ensaios)
E mais:
"A obstinação e a convicção exagerada são a prova mais evidente da estupidez. Haverá algo mais afirmativo, resoluto, desdenhoso, contemplativo, grave e sério do que um burro?"(Idem)
