(Isso estava escrito a lápis há dias, em uma folha solta na bolsa. Passo pra cá hoje, então o "agorinha mesmo" é relativo)
Comprei um livro hoje, agorinha mesmo.
Comprei um livro hoje, agorinha mesmo, que custou a espantosa quantia de R$ 10.
Comprei um livro hoje, que, pela espantosa quantia de R$ 10, rendeu-me um lindo diálogo, poesia do cotidiano.
O moço do caixa - e "moço" é jeito de falar, posto que era um senhor já bem senhor - abre o exemplar para ler a etiqueta que informa o valor quase simbólico do volume e comenta:
- Trabalhei nesta editora por mais de xxx anos. Talvez eu tenha vendido este livro pra cá.
O tom de "encontrei um velho amigo" e a forma respeitosa com que o senhor segurou o livro - com as duas mãos, firmemente - já teriam sido dignos de nota, devolvendo doçura à minha tarde até então triste e pesada.
E ele prosseguiu:
- Uma vez, peguei aqui um livro em que o antigo dono, uma vez decidido a vender para um sebo, mas talvez com pena de levar a cabo o gesto, escreveu na folha de rosto "Vou vender este livro para um sebo, mas ele vai voltar" - e virou de costas, para fazer o troco.
Quase chorei.
(A propósito, os livros de hoje foram "A máquina", ainda com a capa antiga, sem a apelação do filme, e "Não agüento mais", sobre depressão)
16/04/2006
When you´re down and troubled
and you need a helping hand
* Solidariedade-mulherzinha: conceito de minha autoria, elemento agregador superior a nacionalismos, credos, raça e opção sexual, só tem força igual na solidariedade futebilística, seu correspondente masculino. Nenhuma ligação, herança ou compromisso com a solidariedade feminina dos anos 60, quando as "irmãs" descobriram que somos a minoria mais maioria do universo.
and you need a helping hand
Lancei garrafas ao mar, recentemente. E a situação era tão grave que nem usei metáforas ou sutilezas: fiz uma lista objetiva das coisas que me fazem doer o calo e o coração e mandei para um grupo de amigas. Qualquer "não fique assim" já seria um apoio e tanto, mas a reação foi a mais doida, ampla e linda manifestação de amor que eu já recebi!!
Meu e-mail teve mais respostas que megafone do Globo Online!!
Ganhei camiseta com palavras de ordem da minha amiga do mundo dos contos de fadas, pessoas se levantam no meio do dia de trabalho para vir me abraçar, em uma espécie de homeopatia de afeto, uma em especial disse estar estudando um objeto tipo um vuduzinho para eu descarregar as tensões, as portas dos mais variados credos se abriram para mim, todas se preocupam em encher a minha agenda social para eu não ter tempo de sofrer, todas vigiam minhas mãos para eu não fazer buracos na pele e algumas, mediunicamente, mandam mensagens de casa: "Tira a mão do rosto!", "Te peguei no Orkut!".
Muito engraçado, muito comovente, muito, muito, muito importante!!!
Muito engraçado, muito comovente, muito, muito, muito importante!!!
Os meninos (para quem eu não mandei mensagem, porque contava apenas com a solidariedade-mulherzinha*) acabaram aderindo um pouco também. Terráqueo, que presenciou um momento "mar de lágrimas", redobrou o carinho já tradicional, LSDias convidou para cineminha ameno no fim da tarde, o amigo da madrugada convidou para um café com risadas e o teacher afirmou ter um "lado muito feminino" e pergunta o que pode fazer para me ajudar...
Definitivamente, a melhor coisa que tenho na vida são os meus amigos.* Solidariedade-mulherzinha: conceito de minha autoria, elemento agregador superior a nacionalismos, credos, raça e opção sexual, só tem força igual na solidariedade futebilística, seu correspondente masculino. Nenhuma ligação, herança ou compromisso com a solidariedade feminina dos anos 60, quando as "irmãs" descobriram que somos a minoria mais maioria do universo.
Que atire o primeiro post quem nunca caiu no ridículo adolescente de colocar músicas no blog. Até aque eu vinha resistindo, mas quer saber? Azar se é adolescente, ridídulo ou ambos. Lá vai:
Tristeza, por favor vá embora
Minha alma que chora está vendo o meu fim
Fez do meu coração a sua moradia
Já é demais o meu penar
Quero voltar àquela vida de alegria
Quero de novo cantar
E esta (esta, sim, ridícula de doer), que me foi sugerida como um mantra: (Admito que ainda não alcancei este ponto de elevação espiritual, mas caminho célere nesta direção)
De mãos ao atadas, de pés descalços
Com você meu mundo andava de pernas pro ar
Sempre armada, segui seus passos
Atei seus braços pra você não me abandonar
Já nem lembro seu nome, seu telefone eu fiz questão de apagar
Aceitei os meus erros, me reinventei e virei a página
Agora eu tô em outra... (...)
Pode ficar com seu mundinho eu não to nem aí
Tristeza, por favor vá embora
Minha alma que chora está vendo o meu fim
Fez do meu coração a sua moradia
Já é demais o meu penar
Quero voltar àquela vida de alegria
Quero de novo cantar
E esta (esta, sim, ridícula de doer), que me foi sugerida como um mantra: (Admito que ainda não alcancei este ponto de elevação espiritual, mas caminho célere nesta direção)
De mãos ao atadas, de pés descalços
Com você meu mundo andava de pernas pro ar
Sempre armada, segui seus passos
Atei seus braços pra você não me abandonar
Já nem lembro seu nome, seu telefone eu fiz questão de apagar
Aceitei os meus erros, me reinventei e virei a página
Agora eu tô em outra... (...)
Pode ficar com seu mundinho eu não to nem aí
19/03/2006

Santana: Música para os quadris
Com licença Pearl Jam, Stones, U2, tudo beleza, tem espaço pra todo mundo, gosto não se discute e tal e coisa, mas guitarra com molho é oooooutra coisa, outro prato, outro sabor... Show do Santana na Apoteose!!
Não entendo nada de técnica, mas não sou surda e a banda foi o que deveria ser, com louvor: metais em brasa, percussão irresistível. Dancei muito, cantei outro tanto, não me arrependo dos (caríssimos) R$ 120. Minha irmã, que entende muito do riscado, diz ser fã incondicional do Raul Rekow, cujo biotipo inspirou o seguinte comentário do impagável LSDias: "traficante peruano recuperado..." .
Foi um show ótimo e talvez um dos melhores deste ano cheio de atrações internacionais (semana que vem tem outro - Jamiroquai no Claro Hall - vejo vocês lá!) , mas ainda assim não foi o show que eu encomendei aos céus não! Terminou meio bobo, quem estava à minha volta ficou sem saber se tinha acabado mesmo, se devia pedir bis ou ir embora. Faltaram, do "Shaman", "Nothing At All", "The Game Of Love" e "You Are My Kind", e do "All That I Am", "Just Feel Better", "I Don't Wanna Lose Your Love", "My Man" e "Cry Baby Cry". Passei a semana sonhando ouvir/cantar/dançar estas duas últimas ao vivo, e fui pra casa frustrada. Custava trazer uma vocalista bacana, para fazer as músicas que na gravação original tiveram como convidadas Michelle Branch, Mary J. Blige e Joss Stone? Foi economia nos custos da turnê????
Experiência inédita e divertida: puxei a multidão nas palmas que acompanharam o baterista, naquela exibição inacreditável de cerca de 15 minutos. Claro, as palmas teriam vindo de qualquer forma, as batidas de Dennis Chambers ganhando velocidade pediam mesmo interatividade, mas foi muito engraçado fazer o primeiro "clap" e sentir as pessoas aderindo.Vocês não ficaram com medo daquela pomba da paz no telão, não? Gigante, voando, voando, voando, em câmera lenta e sem chegar a lugar nenhum... Parecia uma assombração, sei lá... Para compensar, do telão também veio um momento bem bonito do show: as imagens da carreira, dos álbuns, dos shows de décadas.
O Bono deve ter dito pra ele "fala de paz e de Deus que o povo de lá gosta", e ele lascou umas frases quase samba do crioulo doido, juntando Buda e Xangô. Dispensável, dispensável: a Fundação Milagro não precisa disso... Outras pequenas apelações, que não comprometeram o andamento do espetáculo, foram a citação de ''Aquarela do Brasil'' e a saudação aos "nossos irmãos da favela". Também foi uma apelaçãozinha, mas teve o mérito da originalidade a "Romaria" no baixo de Benny Rietveld. A platéia fez coro bonito no refrão.
A camisa que Carlito usou durante todo o show (nada daquelas presepadas de ficar trocando de figurino) ele comprou em algum camelô na calçadão, aposto. Outra do LSDias: "Figurino discreto, o do Santana, todo em tons de cinza. Desde o cinza amarelo-gema até o cinza verde-bandeira...". Aliás, registro que daqui pra frente só quero ir aos shows com o Lu Dias: apoiada por ele fui me esgueirando pela multidão, e vi quase toda a apresentação na cara do palco, de frente pro gol.
Para ler comentários quase científicos sobre o show, música & músicos, clique aqui e aqui também (Obrigada, mestre!).
P.S. : E eu estava liiiiiiinda de cabelo novo e blusinha esvoaçante!! :))
14/03/2006
Tenho dois comentadores anônimos!!! Um amigo gaiato ("gaiato" é uma palavra antiga, bem ao gosto do freguês) disse que acabo de criar outra instituição: no lugar dos AA, bebuns com crise de identidade, criei o AAA ("adooooro amigos anônimos!", que foi o que exclamei, entusiasmada, ao ler os comments).
Mas acho que peguei o segundo comentante em uma mentirinha. Ele afirma que "do orkut fui prum blog fui pra outro, e cá estou no teu"... mas eu não estou lincada em lugar nenhum!! Este blog é mais isolado que a ilha do Lost!!! Se ele veio, veio do Orkut direto, ou seja, é amigo velho, querendo me pegar de surpresa. Vou investigar...
E quanto às fotos, tenho outras tantas, com mais joelhos, cotovelos, tornozelos e mãos. Interessa? :))
Mas acho que peguei o segundo comentante em uma mentirinha. Ele afirma que "do orkut fui prum blog fui pra outro, e cá estou no teu"... mas eu não estou lincada em lugar nenhum!! Este blog é mais isolado que a ilha do Lost!!! Se ele veio, veio do Orkut direto, ou seja, é amigo velho, querendo me pegar de surpresa. Vou investigar...
E quanto às fotos, tenho outras tantas, com mais joelhos, cotovelos, tornozelos e mãos. Interessa? :))
12/03/2006

Boom Boom Boom
Santana's in the room !!!
A base do show é o CD novo, mas os clássicos certamente estarão lá!!
Terminei de ler "O que as mulheres procuram na bolsa", do Joaquim Ferreira dos Santos, delícia com as palavras-elo unidas em perfeita corrente: nenhuma sobrando, nenhuma faltando, todas de mãozinhas dadas, cercando idéias divertidas, sacações espertas, nostalgias várias, irreverências e maldadezinhas de calibre leve.
Presente inesperado, o volume é a mais concreta doçura da já longa lista de afagos que venho recebendo de um amigo, desde que, numa internauta madrugada, revelei-me seqüelada e recebi no ato a promessa de vingança. (Huum, vai ter neguinho interpretando isso da pior maneira possível... Ah, quer saber? Azar o dos que não lidam bem com seus afetos...).
@mizade só possível nestes tempos virtuais, olho no olho só estivemos uma vez, mas que diferença faz? Ele nem sabe, mas, em duas ou três oportunidades, a minha auto-estima rolava na calçada e ele foi lá, recolheu a coitada, lavou, passou, engomou e mandou entregar, embrulhada em celofane.
Hoje as Pajeros desgovernadas não precisam mais atropelar ninguém (bom, um esbarrão e uns arranhões ainda fariam bem), e a vida segue, agora com mais colorido.
(Para quem quiser ler, a crônica "A mulher seqüelada" está aqui)
Presente inesperado, o volume é a mais concreta doçura da já longa lista de afagos que venho recebendo de um amigo, desde que, numa internauta madrugada, revelei-me seqüelada e recebi no ato a promessa de vingança. (Huum, vai ter neguinho interpretando isso da pior maneira possível... Ah, quer saber? Azar o dos que não lidam bem com seus afetos...).@mizade só possível nestes tempos virtuais, olho no olho só estivemos uma vez, mas que diferença faz? Ele nem sabe, mas, em duas ou três oportunidades, a minha auto-estima rolava na calçada e ele foi lá, recolheu a coitada, lavou, passou, engomou e mandou entregar, embrulhada em celofane.
Hoje as Pajeros desgovernadas não precisam mais atropelar ninguém (bom, um esbarrão e uns arranhões ainda fariam bem), e a vida segue, agora com mais colorido.
(Para quem quiser ler, a crônica "A mulher seqüelada" está aqui)
27/02/2006
Rock'n'roll and rabugice
Já viram que eu não escrevi foi nada sobre os Rolling Stones. Pois é. Passaram-se os dias e eu perdi o gosto. Com o correr dos dias também veio o show do U2, e eu encontrei quem escrevesse, com mais estilo e (falta de) humor exatamente aquilo que eu gostaria de dizer. Com a palavra, Roberto Pompeu de Toledo (Histeria, patetice e rock'n'roll)
A infausta passagem pelo Brasil de dois famosos conjuntos de rock deu ensejo a que os meios de comunicação em geral, a televisão em particular, se dessem com gosto e empenho a uma de suas práticas prediletas – a de incitar a histeria e/ou idiotia da população. "O que você vai sentir quando eles entrarem no palco?", perguntava a repórter, esticando o microfone para um grupo de mocinhas, instantes antes do show do grupo U2. "Vou morrer", disse uma. "Vou surtar", disse outra, tudo entre gritinhos e pulinhos. Era o que a repórter queria ouvir. Morrer, surtar – que delícia! Volta para o estúdio, e os apresentadores do telejornal sorriem, satisfeitos como um político do PSDB depois de esvaziar uma garrafa de Amarone della Valpolicella, corte Sant'Alda, safra 1995, no restaurante Massimo.
Dias antes dos shows, como é de rigor, já havia pessoas acampadas nos locais onde aconteceriam. Imagina-se o desconforto desse novo povo das ruas, a dormir mal, comer pior e sofrer os efeitos dramáticos da falta de um banheiro. Alguém dotado de um mínimo de espírito humanitário procuraria encaminhar essas pessoas a um tratamento psicológico. Não os meios de comunicação. Estes se deleitam diante de tais faquires do universo pop. "Há quanto tempo vocês estão aqui?", pergunta-lhes o repórter. "Dois dias? E o outro lá – três? E o outro – cinco?" E é um maravilhamento só. "Vale a pena?" "Vale, qualquer sacrifício vale." E a televisão exalta o exemplo desses jovens que deixam tudo, conforto, estudo, trabalho, em honra dos ídolos. São os nossos muçulmanos, em tempo de hajj, quando vale qualquer sacrifício, inclusive morrer pisoteado, para visitar os lugares do profeta.
O líder dos Rolling Stones marcha com passos enérgicos de um lado para outro do palco, move os braços de modo decidido, nunca sorri. Abstraia-se o som infernal e, se aquilo fosse cinema mudo, teríamos a cena de um recruta que se perdeu do regimento e procura desesperadamente o rumo, no meio do campo de batalha. Ou, então, a ação de uma dona-de-casa enraivecida, andando de um lado para outro da casa, a mostrar à faxineira como ela fez tudo errado. Não, ninguém está lá para tapar os ouvidos e brincar de cinema mudo. Na verdade essas pessoas estão lá para algo que vai além de ver ou escutar – adorar. "Agora ele se aproxima do público", conta o repórter. "Vai ser o delírio." É o delírio. Se não fosse a presença das câmeras de TV, talvez não se configurasse delírio tão delirante. A TV e o delírio têm tudo a ver.
O líder dos Rolling Stones, na boa tradição do rock, é um nulo em matéria de política. Um "alienado", como se dizia, numa ofensa pior do que xingar a mãe, na época em que ele era jovem. Já Bono, do U2, se entrega à militância em favor de todas as boas causas, tantas que alguém lhe precisaria dizer: "Calma, rapaz! Assim nem Madre Teresa de Calcutá..." Ele considera que o presidente Lula está fazendo muito para diminuir a fome e a pobreza no mundo. Com isso, aumentou em 100% a quantidade de pessoas que partilham desse pensamento – agora ele se soma ao próprio Lula. Ao ir ao encontro do presidente brasileiro, Bono disse que visitar Brasília sempre fora seu sonho. Como? Alguém pode ter o sonho de visitar Brasília? Ou o rapaz está mal, muito mal de sonhos, ou foi insincero. E, se foi insincero nesse ponto, será que também nas causas que defende...
Não. Afastemos as suspeitas descabidas. Importante é que ele chamou uma mocinha de Volta Redonda para dançar no palco. "Que sortuda", exclamou a apresentadora do telejornal. A apresentadora aparentemente gostaria de estar no lugar da mocinha. Ou talvez não. Talvez o que ela quisesse era mostrar que também estava no clima. Não cabiam dissensões. A TV empenhava-se em fazer crer que era saudável, bonito e razoável que todos os brasileiros reagissem com efusões desmesuradas, quanto mais desmesuradas melhor, à presença dos ídolos do rock. O marido da mocinha de Volta Redonda disse que não teve ciúme, nem quando ela afagou o queixo do cantor, bem apertadinha, nem quando lhe sapecou um beijinho na boca. "Fã é assim mesmo", disse. A mocinha, naquele momento, era o retrato do ser humano subjugado. Desceria aos infernos com seu ídolo, o seguiria nas batalhas mais espinhosas pela justiça no mundo, juntaria à dele a voz pelo hexa do Brasil e pela glória da irredenta Irlanda. Fã é assim mesmo.
Bono, portento de tolerância que é, uniu os símbolos do cristianismo, do judaísmo e do Islã na mesma faixa enrolada à testa. Em outro momento, recitou os nomes dos países da América Latina e, quando falou "Argentina", o público vaiou. A platéia provou que, em matéria de tolerância, não é digna de Bono. Em compensação, os coleguinhas de escola do filho brasileiro de Mick Jagger, o homem dos Rolling Stones, mostraram que estão no clima. Quando Jagger apareceu por lá, causou tumulto. Provou-se que as lições da TV estão sendo bem aproveitadas. A histeria e a parvoíce já se implantaram entre as novas gerações. Com isso está garantida sua continuidade.
Já viram que eu não escrevi foi nada sobre os Rolling Stones. Pois é. Passaram-se os dias e eu perdi o gosto. Com o correr dos dias também veio o show do U2, e eu encontrei quem escrevesse, com mais estilo e (falta de) humor exatamente aquilo que eu gostaria de dizer. Com a palavra, Roberto Pompeu de Toledo (Histeria, patetice e rock'n'roll)
A infausta passagem pelo Brasil de dois famosos conjuntos de rock deu ensejo a que os meios de comunicação em geral, a televisão em particular, se dessem com gosto e empenho a uma de suas práticas prediletas – a de incitar a histeria e/ou idiotia da população. "O que você vai sentir quando eles entrarem no palco?", perguntava a repórter, esticando o microfone para um grupo de mocinhas, instantes antes do show do grupo U2. "Vou morrer", disse uma. "Vou surtar", disse outra, tudo entre gritinhos e pulinhos. Era o que a repórter queria ouvir. Morrer, surtar – que delícia! Volta para o estúdio, e os apresentadores do telejornal sorriem, satisfeitos como um político do PSDB depois de esvaziar uma garrafa de Amarone della Valpolicella, corte Sant'Alda, safra 1995, no restaurante Massimo.Dias antes dos shows, como é de rigor, já havia pessoas acampadas nos locais onde aconteceriam. Imagina-se o desconforto desse novo povo das ruas, a dormir mal, comer pior e sofrer os efeitos dramáticos da falta de um banheiro. Alguém dotado de um mínimo de espírito humanitário procuraria encaminhar essas pessoas a um tratamento psicológico. Não os meios de comunicação. Estes se deleitam diante de tais faquires do universo pop. "Há quanto tempo vocês estão aqui?", pergunta-lhes o repórter. "Dois dias? E o outro lá – três? E o outro – cinco?" E é um maravilhamento só. "Vale a pena?" "Vale, qualquer sacrifício vale." E a televisão exalta o exemplo desses jovens que deixam tudo, conforto, estudo, trabalho, em honra dos ídolos. São os nossos muçulmanos, em tempo de hajj, quando vale qualquer sacrifício, inclusive morrer pisoteado, para visitar os lugares do profeta.
O líder dos Rolling Stones marcha com passos enérgicos de um lado para outro do palco, move os braços de modo decidido, nunca sorri. Abstraia-se o som infernal e, se aquilo fosse cinema mudo, teríamos a cena de um recruta que se perdeu do regimento e procura desesperadamente o rumo, no meio do campo de batalha. Ou, então, a ação de uma dona-de-casa enraivecida, andando de um lado para outro da casa, a mostrar à faxineira como ela fez tudo errado. Não, ninguém está lá para tapar os ouvidos e brincar de cinema mudo. Na verdade essas pessoas estão lá para algo que vai além de ver ou escutar – adorar. "Agora ele se aproxima do público", conta o repórter. "Vai ser o delírio." É o delírio. Se não fosse a presença das câmeras de TV, talvez não se configurasse delírio tão delirante. A TV e o delírio têm tudo a ver.
O líder dos Rolling Stones, na boa tradição do rock, é um nulo em matéria de política. Um "alienado", como se dizia, numa ofensa pior do que xingar a mãe, na época em que ele era jovem. Já Bono, do U2, se entrega à militância em favor de todas as boas causas, tantas que alguém lhe precisaria dizer: "Calma, rapaz! Assim nem Madre Teresa de Calcutá..." Ele considera que o presidente Lula está fazendo muito para diminuir a fome e a pobreza no mundo. Com isso, aumentou em 100% a quantidade de pessoas que partilham desse pensamento – agora ele se soma ao próprio Lula. Ao ir ao encontro do presidente brasileiro, Bono disse que visitar Brasília sempre fora seu sonho. Como? Alguém pode ter o sonho de visitar Brasília? Ou o rapaz está mal, muito mal de sonhos, ou foi insincero. E, se foi insincero nesse ponto, será que também nas causas que defende...
Não. Afastemos as suspeitas descabidas. Importante é que ele chamou uma mocinha de Volta Redonda para dançar no palco. "Que sortuda", exclamou a apresentadora do telejornal. A apresentadora aparentemente gostaria de estar no lugar da mocinha. Ou talvez não. Talvez o que ela quisesse era mostrar que também estava no clima. Não cabiam dissensões. A TV empenhava-se em fazer crer que era saudável, bonito e razoável que todos os brasileiros reagissem com efusões desmesuradas, quanto mais desmesuradas melhor, à presença dos ídolos do rock. O marido da mocinha de Volta Redonda disse que não teve ciúme, nem quando ela afagou o queixo do cantor, bem apertadinha, nem quando lhe sapecou um beijinho na boca. "Fã é assim mesmo", disse. A mocinha, naquele momento, era o retrato do ser humano subjugado. Desceria aos infernos com seu ídolo, o seguiria nas batalhas mais espinhosas pela justiça no mundo, juntaria à dele a voz pelo hexa do Brasil e pela glória da irredenta Irlanda. Fã é assim mesmo.
Bono, portento de tolerância que é, uniu os símbolos do cristianismo, do judaísmo e do Islã na mesma faixa enrolada à testa. Em outro momento, recitou os nomes dos países da América Latina e, quando falou "Argentina", o público vaiou. A platéia provou que, em matéria de tolerância, não é digna de Bono. Em compensação, os coleguinhas de escola do filho brasileiro de Mick Jagger, o homem dos Rolling Stones, mostraram que estão no clima. Quando Jagger apareceu por lá, causou tumulto. Provou-se que as lições da TV estão sendo bem aproveitadas. A histeria e a parvoíce já se implantaram entre as novas gerações. Com isso está garantida sua continuidade.
20/02/2006
06/02/2006
A coluna de hoje do Joaquim Ferreira dos Santos, de quem ganhei um doce afago e a promessa da cumplicidade na vingança...
A mulher seqüelada
Seqüelada. Haverá prazer maior do que uma palavra nova numa mulher das antigas? As letrinhas morrem de rir, a moça infelizmente não pára de chorar e de perguntar. O que aconteceu? Seqüelas doem. Por muito. Ligue seu aparelho estereofônico e escute as duas. Já teve a mulata que não está no mapa, o remédio que o doutor me receitou e tantas outras. Todas lindas. As certinhas do Lalau, as garotas do Alceu, as dez mais, as chacretes, as existencialistas com toda razão, as boazudas, as frenéticas, as sufraguetes, as marias chuteiras, as socialites, os brotos, as gatinhas, as cachorras e as eternas cinéfilas cubistas do Estação. Agora é a vez da mulher seqüelada, a mais triste. O trema é antigo, o sentido novo. O problema, coitadas, o mesmo de sempre. O medo, a quase certeza, de que neste momento existe outra tocando a pele dele e o enleio de ontem, o conluio da véspera, foi o último. O medo, a absoluta certeza de constatar que o amor é feito de mãos e dentes, o resto se desfaz na vaguitude dos espíritos, no desespero das saudades, na obsessão eterna, amém. A seqüelada não está no dicionário. Houaiss. Aurélio. Eles não sabiam ainda. Perderam este bonde semântico. Homens tradicionais, todos bem casados, não sabiam nada do pegapracapá amoroso. Nossos dicionaristas não tiveram o prazer. Pularam o verbete. Maysa era uma seqüelada quando cantava meu mundo caiu e me fez ficar assim. Estropiada. Desparagonada. Anarquizada. De quatro. Ela sofria. Dois imensos olhos não pacíficos chorando abandonos semestrais. Nora Ney, então, nem se fala. Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de bem me quer. Hoje há cantoras ecléticas, seqüelada nenhuma se admite. Seqüelada, ouço-as maldizer, ficava a vovozinha. Não que seja praga-e-budapeste insuperáveis. Não lhes ria. Acontece um dia e a todas em sua hora de desespero o rótulo lhes caberá naquele esgar de sempre. Ali, na esquina do buço dourado com a covinha da bochecha. Todos saberão ou, os mais míopes, ouvirão que você não balbucia outra coisa. Ele. Sumiu. Volta? Há a mulher da vida, a Maria ninguém, a canhão, a hippie, a vai com as outras, a vizinha faladeira. A seqüelada já estava nas cavernas egípcias, nenhuma novidade no seu despudor sofrido. Os gregos, os portugueses, os fenícios, todos os homens em algum momento iam embora e deixavam a pobre coitada a perguntar para os amigos. Por quê? Disse que me queria. Rimou as mais doidas poesias. O amor é sentimento ou matéria? Dar ou receber? Por que o espírito é tão possessivo? Noventa por cento do tempo dela são dedicados a tentar entender o na maioria das vezes verbalmente inexplicável. Ele não ligou. Disse que vinha. A mulher seqüelada é isso que você já percebeu. Aquela que ficou traumatizada pela tristeza que Vinicius anunciava na canção. Se a vida é a arte do encontro por que tanto desencontro nessa vida. Eu encontrei uma seqüelada dias atrás e ela me foi sincera no pedido. Que eu a ajudasse a colocá-la no sono daquele certo homem e ele nunca mais dormisse em paz. Nunca mais acertasse o tom de uma música, nunca mais concordasse o verbo com o sujeito, nunca mais acertasse o foco e a luz de uma maldita foto. Que a seqüela atravessasse a rua, sem sinalizar seu novo rumo, e de surpresa, como o carcamano tinha feito com ela, como uma Pajero desgovernada, agora o atingisse — e eu amanhã publicasse no jornal a mais linda das notícias. Que os sinais vitais do indigitado, o seu orgulho de macho, a soberba dos que abandonam, já não estavam mais preservados. Havia se ido desta para uma pior e que a assombração de seu grito de orgasmo pairasse toda noite sobre aquela última a quem ele havia tocado a pele. Só assim ela, a seqüelada que me pede ajuda, se libertaria de reinventar todos os dias os olhos de desejos que ele, ainda anteontem pela manhã, debruçava sobre seu corpo. Só assim ela se livraria do gosto da hóstia consagrada que em seguida ele colocou, recitando o mantra lírico-safado dos amantes, em sua boca arfante. Ela queria mais, mais, mais, e agora sabia tudo em vão. A seqüelada é aquela que se espanta com a voz do corvo na orelha. Nunca mais. Nunca mais. Certas noites ela pede para que a igreja evangélica logo ao lado amplifique dez vezes os gritos de aleluia e lhe apague o corvo das orelhas. Mas o corvo também tem seu sistema de som e TV. Nunca mais é nunca mais. Fala mais alto. Maria Adelaide do Amaral, da minissérie “JK” me perguntou outro dia. Como se dizia lésbica nos anos 50, já que lésbica propriamente não se dizia nos anos dourados da repressão sexual. Cassandra Rios parece que carregava o estigma, nenhuma mais. Sexo não era essa alaúza de agora. Eu arrisquei paraíba e parece que alguém vai ser chamada assim na TV. Não vem ao caso. Seqüelada não tem nada a ver com isso. Pelo contrário. Ela gosta é dos homens, mas geralmente dos homens errados. Tem a ver com a paraíba, mulher macho, sim senhor, apenas porque os rótulos são cruéis e ajudam a entender em quatro sílabas as 500 páginas da odisséia de Ulisses. Entre os adolescentes, por exemplo, há uma seqüelada diferente. Para eles a seqüelada é apenas a mulher lerda, meio viajandona , que não entende bem as coisas. Sofre das idéias, os buracos da maconha já apagando uns arquivos da memória. Na faixa acima dos 30 anos as seqüelas são outras. Atacam o coração. A seqüela identifica a vítima de um cretino qualquer que prometeu mundos, fundos e uma viagem para os cafundós mais profundos onde ninguém interromperia a pressa de suas mãos e dentes. Foi o que ela entendeu e agora ei-la aqui. De quatro, feito a outra. Na véspera do Natal, na noite de aniversário, minutos depois de ter sido presenteado com uma caixa de DVDs dos Beatles, o cara não explicou muito bem o que estava acontecendo para aquele súbito tremor nos artelhos. Arriscou umas palavras vagas sobre a complexidade de se estabelecer um tempo comum entre eles. Parou no meio de uma frase sobre a falta de sintonia entre a ambição física e a correspondência dos sentidos. Olhou turvo para a mosca varejeira que passeava sobre a pia. Bateu a porta como se fosse ali no quiosque comprar flores. E foi. Para sempre. Nem se dignou ao aviso. Era a extrema-unção dos católicos, a saideira do Braca, o baile da cremação das tristezas dos carnavalescos, o último acorde para os melômanos, o trilar do apito para os boleiros. Bateu a porta e inaugurou no peito de mais uma muher a seqüela terçã que a tudo embaça e não deixa crer que amanhã, e nem mesmo depois do carnaval de satisfaction dos Rolling Stones, nunca mais será outro dia. Maldito o amor lhe seja.
A mulher seqüelada
Seqüelada. Haverá prazer maior do que uma palavra nova numa mulher das antigas? As letrinhas morrem de rir, a moça infelizmente não pára de chorar e de perguntar. O que aconteceu? Seqüelas doem. Por muito. Ligue seu aparelho estereofônico e escute as duas. Já teve a mulata que não está no mapa, o remédio que o doutor me receitou e tantas outras. Todas lindas. As certinhas do Lalau, as garotas do Alceu, as dez mais, as chacretes, as existencialistas com toda razão, as boazudas, as frenéticas, as sufraguetes, as marias chuteiras, as socialites, os brotos, as gatinhas, as cachorras e as eternas cinéfilas cubistas do Estação. Agora é a vez da mulher seqüelada, a mais triste. O trema é antigo, o sentido novo. O problema, coitadas, o mesmo de sempre. O medo, a quase certeza, de que neste momento existe outra tocando a pele dele e o enleio de ontem, o conluio da véspera, foi o último. O medo, a absoluta certeza de constatar que o amor é feito de mãos e dentes, o resto se desfaz na vaguitude dos espíritos, no desespero das saudades, na obsessão eterna, amém. A seqüelada não está no dicionário. Houaiss. Aurélio. Eles não sabiam ainda. Perderam este bonde semântico. Homens tradicionais, todos bem casados, não sabiam nada do pegapracapá amoroso. Nossos dicionaristas não tiveram o prazer. Pularam o verbete. Maysa era uma seqüelada quando cantava meu mundo caiu e me fez ficar assim. Estropiada. Desparagonada. Anarquizada. De quatro. Ela sofria. Dois imensos olhos não pacíficos chorando abandonos semestrais. Nora Ney, então, nem se fala. Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de bem me quer. Hoje há cantoras ecléticas, seqüelada nenhuma se admite. Seqüelada, ouço-as maldizer, ficava a vovozinha. Não que seja praga-e-budapeste insuperáveis. Não lhes ria. Acontece um dia e a todas em sua hora de desespero o rótulo lhes caberá naquele esgar de sempre. Ali, na esquina do buço dourado com a covinha da bochecha. Todos saberão ou, os mais míopes, ouvirão que você não balbucia outra coisa. Ele. Sumiu. Volta? Há a mulher da vida, a Maria ninguém, a canhão, a hippie, a vai com as outras, a vizinha faladeira. A seqüelada já estava nas cavernas egípcias, nenhuma novidade no seu despudor sofrido. Os gregos, os portugueses, os fenícios, todos os homens em algum momento iam embora e deixavam a pobre coitada a perguntar para os amigos. Por quê? Disse que me queria. Rimou as mais doidas poesias. O amor é sentimento ou matéria? Dar ou receber? Por que o espírito é tão possessivo? Noventa por cento do tempo dela são dedicados a tentar entender o na maioria das vezes verbalmente inexplicável. Ele não ligou. Disse que vinha. A mulher seqüelada é isso que você já percebeu. Aquela que ficou traumatizada pela tristeza que Vinicius anunciava na canção. Se a vida é a arte do encontro por que tanto desencontro nessa vida. Eu encontrei uma seqüelada dias atrás e ela me foi sincera no pedido. Que eu a ajudasse a colocá-la no sono daquele certo homem e ele nunca mais dormisse em paz. Nunca mais acertasse o tom de uma música, nunca mais concordasse o verbo com o sujeito, nunca mais acertasse o foco e a luz de uma maldita foto. Que a seqüela atravessasse a rua, sem sinalizar seu novo rumo, e de surpresa, como o carcamano tinha feito com ela, como uma Pajero desgovernada, agora o atingisse — e eu amanhã publicasse no jornal a mais linda das notícias. Que os sinais vitais do indigitado, o seu orgulho de macho, a soberba dos que abandonam, já não estavam mais preservados. Havia se ido desta para uma pior e que a assombração de seu grito de orgasmo pairasse toda noite sobre aquela última a quem ele havia tocado a pele. Só assim ela, a seqüelada que me pede ajuda, se libertaria de reinventar todos os dias os olhos de desejos que ele, ainda anteontem pela manhã, debruçava sobre seu corpo. Só assim ela se livraria do gosto da hóstia consagrada que em seguida ele colocou, recitando o mantra lírico-safado dos amantes, em sua boca arfante. Ela queria mais, mais, mais, e agora sabia tudo em vão. A seqüelada é aquela que se espanta com a voz do corvo na orelha. Nunca mais. Nunca mais. Certas noites ela pede para que a igreja evangélica logo ao lado amplifique dez vezes os gritos de aleluia e lhe apague o corvo das orelhas. Mas o corvo também tem seu sistema de som e TV. Nunca mais é nunca mais. Fala mais alto. Maria Adelaide do Amaral, da minissérie “JK” me perguntou outro dia. Como se dizia lésbica nos anos 50, já que lésbica propriamente não se dizia nos anos dourados da repressão sexual. Cassandra Rios parece que carregava o estigma, nenhuma mais. Sexo não era essa alaúza de agora. Eu arrisquei paraíba e parece que alguém vai ser chamada assim na TV. Não vem ao caso. Seqüelada não tem nada a ver com isso. Pelo contrário. Ela gosta é dos homens, mas geralmente dos homens errados. Tem a ver com a paraíba, mulher macho, sim senhor, apenas porque os rótulos são cruéis e ajudam a entender em quatro sílabas as 500 páginas da odisséia de Ulisses. Entre os adolescentes, por exemplo, há uma seqüelada diferente. Para eles a seqüelada é apenas a mulher lerda, meio viajandona , que não entende bem as coisas. Sofre das idéias, os buracos da maconha já apagando uns arquivos da memória. Na faixa acima dos 30 anos as seqüelas são outras. Atacam o coração. A seqüela identifica a vítima de um cretino qualquer que prometeu mundos, fundos e uma viagem para os cafundós mais profundos onde ninguém interromperia a pressa de suas mãos e dentes. Foi o que ela entendeu e agora ei-la aqui. De quatro, feito a outra. Na véspera do Natal, na noite de aniversário, minutos depois de ter sido presenteado com uma caixa de DVDs dos Beatles, o cara não explicou muito bem o que estava acontecendo para aquele súbito tremor nos artelhos. Arriscou umas palavras vagas sobre a complexidade de se estabelecer um tempo comum entre eles. Parou no meio de uma frase sobre a falta de sintonia entre a ambição física e a correspondência dos sentidos. Olhou turvo para a mosca varejeira que passeava sobre a pia. Bateu a porta como se fosse ali no quiosque comprar flores. E foi. Para sempre. Nem se dignou ao aviso. Era a extrema-unção dos católicos, a saideira do Braca, o baile da cremação das tristezas dos carnavalescos, o último acorde para os melômanos, o trilar do apito para os boleiros. Bateu a porta e inaugurou no peito de mais uma muher a seqüela terçã que a tudo embaça e não deixa crer que amanhã, e nem mesmo depois do carnaval de satisfaction dos Rolling Stones, nunca mais será outro dia. Maldito o amor lhe seja.
23/01/2006
Uma metáfora para a minha vida
Quem me conhece sabe que eu tenho duas casas, o que significa que eu fico carregando malas para lá e para cá. Pois bem: uma dessas malas estava estacionada na minha cozinha desde sexta, e também desde sexta eu vinha evitando abri-la. Eu não lembrava bem o que havia guardado nela, mas estava certa de que ela estava cheia daquilo que chamo genericamente de pendências - tarefas dos dois empregos, da aula de inglês, das promessas feitas aos amigos e a mim mesma e nunca cumpridas, roupa por lavar, livros por ler, e não sei mais o que.
Passei todo o dia de hoje adiando, temendo, contornando e fingindo não ver a dita mala. Como estratégia para evitar encarar esta que eu julgava ser a mais penosa tarefa do fim de semana, arrumei todos os armários e estantes que pude - e não posso negar que isso foi bem divertido e lucrativo, mas definitivamente não era uma prioridade, era só uma rota de fuga.
Quando acabei de arrumar a última prateleira e não havia mais como escapar, fui lá, com o coração apertado , encarar a mala, já pronta para dizer "Ai, meu Deus , eu devia ter feito isso primeiro...".
Adivinhem? A mala estava VAZIA... em algum momento eu tirei tudo o que estava dentro dela e não lembrava, não percebi, sei lá. Atormentei-me três dias seguidos à toa.
Moral da história: acho que estou carregando, sem saber , muitas outras malas vazias na vida. Preciso olhar dentro delas, para finalmente descansar.
Quem me conhece sabe que eu tenho duas casas, o que significa que eu fico carregando malas para lá e para cá. Pois bem: uma dessas malas estava estacionada na minha cozinha desde sexta, e também desde sexta eu vinha evitando abri-la. Eu não lembrava bem o que havia guardado nela, mas estava certa de que ela estava cheia daquilo que chamo genericamente de pendências - tarefas dos dois empregos, da aula de inglês, das promessas feitas aos amigos e a mim mesma e nunca cumpridas, roupa por lavar, livros por ler, e não sei mais o que.
Passei todo o dia de hoje adiando, temendo, contornando e fingindo não ver a dita mala. Como estratégia para evitar encarar esta que eu julgava ser a mais penosa tarefa do fim de semana, arrumei todos os armários e estantes que pude - e não posso negar que isso foi bem divertido e lucrativo, mas definitivamente não era uma prioridade, era só uma rota de fuga.
Quando acabei de arrumar a última prateleira e não havia mais como escapar, fui lá, com o coração apertado , encarar a mala, já pronta para dizer "Ai, meu Deus , eu devia ter feito isso primeiro...".
Adivinhem? A mala estava VAZIA... em algum momento eu tirei tudo o que estava dentro dela e não lembrava, não percebi, sei lá. Atormentei-me três dias seguidos à toa.
Moral da história: acho que estou carregando, sem saber , muitas outras malas vazias na vida. Preciso olhar dentro delas, para finalmente descansar.
08/01/2006
Tenho dois leitores, vejam só!
Ambos bem exigentes. A minha amiga do mundo dos contos de fadas manda e-mail dizendo "queremos atualizações" e o meu amigo Malvadão liga fazendo ameaças e avisando sobre os riscos que eu correria se fizesse citações sobre ele aqui. Vou ter que contratar um segurança, então, pq como deixar de falar sobre uma das pessoas mais importantes da minha vida?
Ambos bem exigentes. A minha amiga do mundo dos contos de fadas manda e-mail dizendo "queremos atualizações" e o meu amigo Malvadão liga fazendo ameaças e avisando sobre os riscos que eu correria se fizesse citações sobre ele aqui. Vou ter que contratar um segurança, então, pq como deixar de falar sobre uma das pessoas mais importantes da minha vida?
'Eu' Noites Cariocas
- Comentário ao fim do abre da Preta Gil para o show de Gilberto, neste sábado, no Morro da Urca:
- O músico tá lá nos bastidores tranqüilo, o ministro está puto e o pai constrangidíssimo!!...
- Preta Gil poderia facilmente fazer grande sucesso popular, se não fizesse tanta força para ser sucesso e popular. Canta bem, dança com vontade e é simpática no palco, não precisava mesmo adotar o estilo "eu sou o escândalo da vez". Também ajudaria se resolvesse se quer cantar funk, pop, axé, samba... Ecletismo tem limite. E aquele vestido dourado ela deve ter comprado na Loja Marisa de Madureira!
- A platéia estava tão classe média que eu nem me senti inadequada.
- Todo mundo foi lá para gostar, não tinha mesmo chance de não dar certo, mas o espetáculo superou a minha mal-humorada expectativa (aquele papo de alma velha, vocês sabem). Gil parecia grato e comovido por ser recebido simplesmente como o artista estupendo que é, agradeceu várias vezes, e se divertiu tanto quanto a platéia. O ministro tava feliz. Bonitos (ia dizer emocionante, mas ia ser demais) a voz de sempre, o acento baiano no tango irado e nas letras em inglês, os gestos altivos de saudação à platéia, braços para o alto, na beira do palco. O ministro tava feliz... Vieram os clássicos previsíveis, seus e de outros, e o pai da Preta tirou graça e beleza até mesmo da surradíssima Imagine. Só faltou "Esperando na janela". Eu cantei bastante, aproveitando para expandir o chacra laríngeo, como mandou a minha astróloga. O aplaudômetro marcou 10 em "Palco", "Vamos fugir", "No woman, no cry" e quase explodiu em "Aquele abraço". O bloco vou pra Jamaica foi longo demais , na vedade quase todo o show ("...maconheiro conhece todas as músicas de Bob Marley, é só começar que todo mundo canta..."), mas tudo bem, as good vibes estavam todas lá e o ministro tava feliz.
- Alguém gritou "Gil, corta o cabelo!!". Apoioado...
- Fui com irmão e cunhada. Oportunidade para conversas reveladoras e para vê-lo, elegante, swing&simpatia, em um sambinha malandro.
- Os trejeitos de roqueiro-regueiro-macumbeiro do ministro no palco não deixaram dúvida de que Preta tem a quem puxar.
27/12/2005
Quase dois anos sem escrever nada aqui!
Este é o meu terceiro blog. O primeiro, "Provisório", era bem bonitinho, tinha uns textos muito bons, mas acabou virando depósito de tanta mágoa que um dia pedi ao meu "gerente" que tirasse tudo do ar e deletasse. Hoje me arrependo um pouco, gostaria de recuparar algumas coisas, mas talvez esta arqueologia doesse tanto, tanto... Afinal, o nome era "Provisório", não era? Então... passou!
Até aqui este blog era só um rascunho, ninguém tinha o endereço. Hoje vou colocar no Orkut, e seja o que Deus quiser.
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